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Entrevista Gustavo Reiz

Novelas Verticais: O Futuro da Teledramaturgia Digital

O jeito de contar histórias mudou e quem ainda escreve como antes pode estar ficando para trás.

As novelas verticais e os microdramas vêm redefinindo o mercado audiovisual digital, criando uma nova lógica de consumo, ritmo e construção narrativa. Pensadas para o mobile, essas produções exigem um domínio específico de linguagem, estrutura e retenção de audiência, tornando o roteiro para novelas verticais uma habilidade cada vez mais estratégica para roteiristas.

Para entender esse movimento, conversamos com Gustavo Reiz, novelista e roteirista com mais de 20 anos de experiência em teledramaturgia, com trajetória consolidada nas principais emissoras do Brasil, como Globo, Record e SBT. Ao longo da carreira, desenvolveu novelas de época, adaptações literárias e séries policiais, além de atuar como consultor artístico e líder de projetos criativos.

Premiado internacionalmente como autor da Melhor Telenovela no Seoul International Drama Awards, destaca-se pela capacidade de transitar entre formatos e linguagens.

Atualmente, lidera produções de microdramas e novelas verticais, acompanhando as transformações do audiovisual e explorando novas formas de narrativa no ambiente digital.

Nesta entrevista, você vai entender como funciona a estrutura narrativa dos microdramas, as oportunidades no mercado de novelas verticais, os desafios de produção e os caminhos para quem deseja trabalhar com roteiro audiovisual para plataformas digitais.

Fala um pouco da sua trajetória profissional. Como você chegou à teledramaturgia?

Comecei minha carreira como ator aos 11 anos de idade, no curso de teatro da escola. Por volta dos 13, 14 anos, comecei a escrever e produzir as minhas próprias peças. E não parei mais. Durante uma turnê de uma peça em São Paulo, em 2005, fui até o SBT levar meu material de ator e fui convidado pelo David Grimberg, o diretor de teledramaturgia na época, para fazer um workshop de roteiro com o Doc Comparato, que havia acabado de ser contratado. Eu já estudava o livro do Doc (Da Criação ao Roteiro) na época e fiquei muito animado.

Fiz o curso com mais 20 roteiristas e o Doc me escolheu como seu assistente. Trabalhei como coordenador de texto na equipe que adaptaria um clássico da Televisa e tive a chance de trabalhar com profissionais incríveis, quando tinha 21, 22 anos. Depois dessa experiência, fui para a Record integrar a equipe da autora Ana Maria Moretzsohn e logo passei a assinar minhas próprias tramas.

Em 13 anos na emissora, escrevi de tudo; novela contemporânea, comédia, série policial, novela de época colonial, medieval, bíblica… Participei ativamente do núcleo de dramaturgia, também analisando sinopses, projetos em parceria com a Televisa e tantos outros. Em 2019, fui para a Globo, pelas mãos do mestre Silvio de Abreu, a quem tanto admiro. São 21 anos de muita produtividade e dedicação ao gênero.

O que te atraiu especificamente nesse mercado? Foi o formato novela, o alcance popular, a possibilidade de contar histórias longas ou a relação direta com o público?

Novela é uma paixão nacional. E eu sempre fui noveleiro. Tenho lembranças de novelas que passavam quando eu tinha cinco anos de idade. Gostava dos personagens, das tramas, da estrutura dos capítulos, dos recursos da narrativa. E quando entrei para o mercado, me apaixonei por toda a engrenagem. Gosto da união de talentos, da troca de ideias, das peças que se encaixam para produzir algo enorme, com um alcance muito maior. Como autor, o que mais me atrai numa novela é a possibilidade de misturar gêneros e explorar as trajetórias dos personagens ao longo de tantos capítulos.

Você veio de uma novela de horário nobre, que exige fôlego de maratona. Como foi o “choque” de mudar o chip para contar histórias que precisam prender o usuário em segundos no celular?

Foi desafiador e instigante. Inicialmente, subestimei a dificuldade da escrita, por pensar que seria muito mais simples criar capítulos mais curtos e histórias mais condensadas. É a primeira impressão quando pensamos que um capítulo de novela tem 40 páginas e um microdrama inteiro tem de 80 a 100. Mas quando percebi que a lógica de criação era completamente diferente e que os gêneros tinham códigos muito peculiares, entendi que se tratava de algo novo, apesar de beber da mesma fonte – o melodrama. Esse “choque” me levou ao estudo, à pesquisa e a trocas muito enriquecedoras com criadores de todo o mundo, já que o mercado (profissional) era quase nulo por aqui.

Em que momento você percebeu que as novelas verticais deixaram de ser uma experiência pontual e passaram a se consolidar como mercado?

Foi como uma grande onda, que começou na China e foi migrando para outros mercados. E como o Brasil é, historicamente, um grande consumidor de histórias seriadas, como as telenovelas, dificilmente ficaríamos de fora deste movimento.  Quando surgiram as primeiras adaptações internacionais por aqui e eu participei ativamente deste processo, pude conhecer o comportamento do público e ter a noção da enorme demanda. Fiquei muito instigado pelo gênero.

E, na sua visão, por que esse boom aconteceu agora, mudança de hábito do público, força das redes sociais, custo de produção ou uma combinação de tudo isso?

Uma combinação de tudo isso. O celular já é a fonte primária de informações e consumo de vídeos de uma enorme parcela da população global. O que a indústria do microdrama entendeu é que existia um espaço de tempo a ser preenchido; o tempo que, normalmente, muitos “perdiam” com um rolar de feed aleatório, com o consumo de vídeos por pura distração, em momentos de espera ou locomoção (transportes, intervalos de trabalho, filas etc). Essa atenção já estava ali, no celular. E o microdrama surgiu para esta audiência, contemplando o tempo curto e as expectativas de consumo. Em termos de produção, há uma evidente combinação entre baixo custo e amplo alcance, o que torna o gênero ainda mais atraente para o mercado.

Quais temas ou tipos de história você percebe que funcionam melhor hoje no formato de novelas verticais? Existe algum assunto que claramente engaja mais o público?

As novelas verticais se baseiam em tropos e arquétipos; temas e personagens que já povoam o imaginário popular. Muitas são variações de um mesmo tema – o que se explica pela lógica de consumo; o espectador termina de assistir uma trama e busca outra parecida, que continue satisfazendo a sua expectativa. É a novela da satisfação rápida, da recompensa garantida. As histórias que entregam isso ao público tendem a performar melhor. O romance é o gênero que mais engaja globalmente.

Pensando nesse cenário, qual é a principal dica para quem quer entrar hoje no mercado de novelas verticais? Tanto para quem está começando quanto para quem já vem da teledramaturgia tradicional.

Beber da fonte. Assistir microdramas chineses, americanos. Estudar suas lógicas e estruturas, de modo que os códigos passem a ser perceptíveis e orgânicos. Estudar é preciso. No caso de quem já vem da teledramaturgia tradicional, como é o meu caso, a minha dica é: não tente replicar as convenções das telenovelas ou séries num microdrama, porque muitas não vão se encaixar. Esteja aberto, domine a linguagem antes de querer ousar ou criar algo diferente, revolucionário. 

Quando falamos de estrutura narrativa em novelas verticais, qual modelo você considera mais eficiente hoje? Existe uma lógica de atos, arcos ou blocos de episódios que funcione melhor, ou isso depende do modelo de produção?

Depende muito do modelo de produção e distribuição. Por exemplo: há os chamados paywalls, que são aqueles pontos em que o usuário precisa pagar para continuar assistindo – e isso varia muito nas plataformas. Geralmente, a lógica mais eficiente é estruturar o roteiro de acordo com esses pontos – uma grande virada de dez em dez capítulos, sete em sete, vai depender do player. Mas o microdrama exige uma entrega unitária muito mais completa do que qualquer outro gênero; em todo capítulo deve ter um start de impacto, um conflito a ser enfrentado, um pico emocional, um gancho potente. Isso ao longo de toda a trama.  Conhecer a estrutura de produção (locações, elenco, eventos etc) antes de escrever também torna o processo muito mais eficiente. 

Existe uma estrutura narrativa episódica, como nas séries, que acaba determinando a duração ideal dos episódios? Ou esse tempo está mais alinhado à plataforma onde o conteúdo será disponibilizado?

O desafio do microdrama é condensar uma estrutura completa (com densidade emocional) num espaço de tempo muito curto – para não gerar desconexão. Por essa lógica, quanto mais curto e objetivo, melhor.

Métricas e Feedback: Diferente do Ibope, aqui você tem dados em tempo real. Saber exatamente onde o público parou de assistir mudou a sua forma de escrever os episódios seguintes?

O microdrama é uma obra fechada – e deve ser assim, pela lógica de produção. Mas o acesso aos dados de consumo é uma ferramenta poderosa, não só para nortear novas produções; muitos microdramas internacionais são reeditados inúmeras vezes, de acordo com os dados e respostas da audiências.

Você vê as novelas verticais como uma oportunidade real para pequenas e médias produtoras entrarem no mercado? Ou acredita que esse formato ainda exige estruturas e investimentos mais próximos das grandes produções?

É uma enorme oportunidade, isso já é uma realidade. Neste momento, inúmeras produtoras estão trabalhando em projetos de novelas verticais, há uma efervescência produtiva que não se via há muitos anos. As produções brasileiras já figuram nas mais vistas do ReelShort, várias novelinhas originais estreando em todas as plataformas.

O que eu acredito é que as grandes plataformas devem traçar suas estratégias para retenção e fidelização de público – e isso requer consistência, requer investimento. Quanto mais dados, por exemplo, mais conhecimento do público, mais chances de entregar o que ele deseja. As grandes plataformas possuem mais recursos para acessar essas estruturas.

Quando falamos dessas produções de novelas verticais, como elas costumam funcionar na prática?
– tamanho das equipes
– ritmo de produção
– volume de episódios
– tomada de decisões criativas

Equipes reduzidas (máx. 2 roteiristas), ciclo de 7 a 10 diárias de gravação por novela – o que impõe um ritmo muito acelerado de produção, 50 a 80 capítulos, em média.  As tomadas de decisões criativas, geralmente, vêm da união de autoria, direção e produção. O alinhamento entre esses três pilares é o que vai possibilitar uma boa entrega.

Na sua visão, o que pesa mais hoje para viabilizar uma novela vertical: orçamento, criatividade ou estratégia de distribuição?

O maior desafio é o orçamento, já que ele impacta em tudo – e exige muito mais da criatividade, inclusive. Mas uma estratégia de distribuição eficaz é necessária. Em algumas produções internacionais, o gasto com distribuição e propaganda pode ser até cinco vezes maior do que o valor da realização.

Quantas pessoas costumam integrar uma sala de roteiro de novela vertical? É uma dinâmica muito diferente da novela tradicional? O processo costuma ser mais colaborativo ou mais centralizado no autor principal?

A dinâmica é completamente diferente. Com relação ao texto, o processo é mais centralizado, difícil de desenvolver uma sala de roteiro. Eu escrevi todas as minhas sozinho, mas agora estou trazendo colaboradores para formar novos autores do gênero e ampliar as possibilidades diante da alta demanda do mercado. Gosto muito de conhecer e potencializar novos talentos.

O que você busca hoje em um colaborador para esse formato? É melhor ser um roteirista de TV experiente ou um criador de conteúdo nativo das redes com conhecimento de storytelling e narrativas?

Independente da experiência (que sempre é bom, claro!), é preciso abraçar o gênero. Querer se desafiar, entender que é um outro formato, outra linguagem, outra forma de contar histórias. Se pensarmos num modelo interessante para uma “micro-sala” seria unir novos talentos, profissionais de TV e criadores da internet. Acho que esse híbrido, essa troca, pode ser muito enriquecedora.

O autor-roteirista costuma participar do lançamento da novela vertical? Opina sobre onde postar, como postar e estratégia de distribuição?

Sim. Mas cada plataforma tem suas estratégias e regras. Considero importante o autor participar de todos os momentos e etapas.

Na sua visão, qual é hoje a melhor rede social para lançar uma novela vertical? Existe uma forma “ideal” de lançamento ou tudo ainda está em teste?

Depende dos objetivos do lançamento, do público que se quer alcançar. Talvez soe como óbvio, mas antes de qualquer lançamento (e até de qualquer iniciativa de produção), é preciso definir uma estratégia. Cada rede social ou plataforma tem seu público, suas características, seu alcance. É importante que eles estejam alinhados com os objetivos do lançamento.

Você acha que entender marketing, redes sociais e estratégia digital virou uma habilidade essencial para roteiristas nesse formato?

Quanto mais conhecimento, melhor, sempre. O autor pode ter profissionais específicos destas áreas na equipe (de roteiro ou produção), mas acho que se aprofundar nesses temas é muito importante para os roteiristas, de um modo geral. Mas quando falamos sobre uma produção concebida para o meio digital, onde a principal (e talvez a única) janela exibidora seja o celular, não há dúvida de que essas habilidades serão cada vez mais necessárias.

Quais são, na sua opinião, as principais diferenças entre as novelas verticais produzidas no Brasil e as de outros países? Pensando em linguagem, temas, ritmo narrativo e modelo de produção.

O Brasil ainda está desenvolvendo a sua identidade com relação às novelas verticais, mas percebo uma dose maior do melodrama, das histórias menos absurdas ou mais violentas. Acredito que o humor também se destaque nas produções brasileiras. Mas essa é uma construção que está em curso, ainda que de forma muito acelerada. É natural que as primeiras produções bebam da fonte dos hits internacionais, replicando modelos testados e aprovados, até desenvolver os seus próprios códigos. Há modelos de produção praticados no exterior (relacionados a carga de trabalho e vários outros aspectos que já são discutidos na indústria) que não conseguimos aplicar aqui. Com isso, novos modelos são desenvolvidos – é o que está acontecendo neste momento. Em pouco tempo teremos um panorama melhor do nosso próprio universo.

Você teve contato direto com o modelo de produção da ReelShort. O que o mercado chinês e americano, já estão fazendo nesse formato que o Brasil ainda precisa aprender ou desenvolver?

Precisamos de experiência de produção para definir os nossos modelos mais eficazes para todos os setores – criação, produção, distribuição, monetização etc – e isso está em curso. Os modelos que eles seguem são constantemente testados num mercado enorme, bilionário, consolidado. Nós estamos desenvolvendo a nossa indústria. Começamos tardiamente com relação a esses mercados, mas o Brasil é um gigante em termos de produção e consumo de dramaturgia. 

Em contrapartida, o que a nossa tradição de teledramaturgia brasileira traz de diferencial ou até de superior para o formato de novelas verticais? Existe um “DNA brasileiro” que pode nos destacar nesse mercado?

É justamente o que eu quis destacar na resposta anterior; temos a dramaturgia no nosso DNA. Temos grandes talentos em toda a cadeia criativa e produtiva, um potencial avassalador de comunicação. Não tenho dúvidas de que as novelas verticais do Brasil se destacarão pelo mundo, assim como nossas telenovelas se destacam. É uma questão de tempo, de estudos de comportamentos do público, da obtenção e análise de dados, das experiências de produção.

A gente já começa a ver novelas verticais produzidas com apoio de IA, seja em roteiro, imagem ou produção. Como você enxerga esse tipo de conteúdo? Você vê a IA mais como uma ferramenta de apoio criativo ou como um risco para a autoria e a dramaturgia?

Vejo como uma ferramenta de apoio criativo e produtivo. Num recente painel internacional, foi revelado que o uso de IA chega a reduzir os custos de produção em cerca de 40% – o que libera capital para ser investido em criação, pesquisa e desenvolvimento estrutural. Com relação às dublagens, por exemplo, esse mesmo painel apontou a preferência do público por vozes humanas – o uso de IA, nesse caso, gera desconexão. Um outro estudo também apontou que o uso de IA nos banners de divulgação das produções reduzia o interesse do público pela história. Ou seja; o público busca conexão com a emoção. E esse ponto sempre será o diferencial dos criadores.

Para quem quer viver de escrita dentro desse novo mercado, qual conselho prático você daria hoje para quem quer mergulhar nesse mercado?

Assistir microdramas de vários países e de várias plataformas. Estudar, conhecer, pesquisar e elaborar sinopses que seguem os códigos, as linguagens. Acho importante dominar o que o mercado conhece e entende como as principais características do gênero, para poder desenvolver os seus com mais segurança. Buscar conexões com produtores e diretores – são eles que vão tirar a sua ideia do papel. Unir-se a talentos de diferentes áreas que também queiram mergulhar neste universo, juntar forças, unir paixões. O roteirista precisa entender que, no universo do microdrama, não basta escrever. Ter inúmeras sinopses é bom e pode ser muito útil, mas quem se une ao processo produtivo tende a realizar mais. O criador de um microdrama se aproxima muito mais da figura do showrunner, daquela pessoa que não só vai vender a história, mas também se envolve diretamente em todas as outras etapas do processo.

O futuro das histórias já começou. No dia 16/04, Gustavo Reiz lança “Microdramas: Entendendo a Revolução Vertical”, um convite para entender as novas narrativas do audiovisual.

📍 Livraria Argumento – Leblon / 19h às 21h30

Se você trabalha com histórias, vale a pena estar lá.

E em breve aqui no Roteiros e Narrativas teremos uma nova turma do curso Roteiro para Novelas Verticais.

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